terça-feira, 21 de setembro de 2010

Por cima do batente, tenho um letreiro


Ó vós que entrais, não abandoneis toda a esperança!

isto não é um cachimbo, não é um lápis, não é um livro; digo-vos que não é nada, e não sendo nada, é tudo o que eu quiser.

"A arte deve ser algo divertido e um nadinha maçador.
Faz parte da essência dos símbolos ser diabólico."
Jacques Vaché

Em Busca do Tempo Perdido


Quero passar para a irresponsabilidade do homem anárquico que não pode ser coagido, nem adulado, nem persuadido, nem caluniado.

Adenda a "O Aleluia, ou Aforismo Eucarístico"


"É a minha opinião, e sou a seu favor."
Henri Monnier

O Aleluia, ou Aforismo Eucarístico


"Alimenta todas as coisas com o alimento conveniente para elas - isto é, se o alimento for obtenível. O alimento da tua alma é luz e espaço; alimenta-a de luz e espaço. Mas o alimento do corpo é champanhe e ostras. Alimenta-o pois de champanhe e ostras; e que ele mereça assim uma alegre ressurreição, se alguma houver."


Melville, em "Pierre ou as Ambiguidades"

Como Deus, escrevi em tábua de pedra o meu Decálogo


Onde se alterna, como manda a vida, entre o vernacular e o lírico, na demanda pela descredibilização da opinião sobre a afirmação do indivíduo.

1. As opiniões são como os buracos do cu, toda a gente tem.
- Larry Claxton Flynt, Jr

2. Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo.
- Marquês de Sade

3. Tantos são os gostos quantos os rostos, e tão variados. Não há senão sem paixão, nem se há-de perder a confiança porque as coisas não agradam a uns, pois não faltarão outros que as apreciem. E que tampouco o aplauso destes lhe seja motivo de convencimento, pois outros o condenarão. (...) Não se vive de uma só opinião, de um só uso, de um só seculo.
- Baltasar Gracián y Morales

4. Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal.
- Niccolo Maquiavel

5. O homem não deve ser julgado pelas suas opiniões, mas pelos seus actos.
- Máxima Judaica

6. Quanta gente sem talento ousa comentar a obra dos talentosos, dizendo: "Se soubesse fazer isto, tê-lo-ia feito melhor".
- Marie Eschenbach

7. No mundo sempre correu igual risco a boa como a má opinião, e na opinião de muitos, mais arriscada foi sempre a boa que a má fama.
- Padre António Vieira

8. Amigo, perceberás que no mundo existem muito mais tolos do que homens, e lembra-te disso.
- Rabelais

9. Todos vêem o que pareces, poucos percebem o que és.
- Niccolo Maquiavel

10. Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso.
- Girardin

De cigarro na mão, sou absolutamente bestial


De cigarro na mão, sou absolutamente bestial.
Rio-me como um cavalo,
e galopo como um louco.

Um Pouco de Cultura Visual - Carracci Erótico III - O Sátiro e a Ninfa

A Agenda Política, segundo Diogo de Sousa


A Agenda Política, segundo Diogo de Sousa (Ainda a tempo das próximas eleições)


Como primeiro decreto do novo Governo, será adicionado, por recriação, um archote aceso, e uma generosa quantidade de combustível (não superior a 2l/habitante), ao Edifício do Parlamento, e a isso será chamado, também por decreto, “Dia da Defesa Nacional”.
Dissolvidas as coisas pelo fogo, o poder será reduzido, pelo Chefe de Estado, numa atitude de auto-mutilação consciente, à Junta de Freguesia. Nada poderá suplantar, em tamanho, poder ou vanglória, a Instituição da Junta de Freguesia. A felicidade e o sonho não estarão sob decretos métricos estatais (do Estado Nado-Morto), sendo, por isso, livremente aplicados pela consciência de cada um.
O dinheiro proveniente da Economia de Comarca e Inter-Comarca será aplicado na Comarca produtora, em quantidades absolutas, e em actividades ou infra-estruturas a decidir em reunião magna local. O dinheiro proveniente da Economia Internacional será distribuido, num envelope selado com a marca de água do novo Governo no canto inferior direito, por todas as Freguesias do novo estado, primeiramente numa base per-capita (não superior a 85% do montante total), e subsequentemente (os restantes 15%, e o excedente dos arredondamentos à unidade) numa base pro-rata. Será privilegiado o investimento em arraiais populares (de duração variável) e no incentivo ao Comércio Local. Isto também será um decreto.
Ainda por decreto, serão extintos todos os partidos políticos, e o bom senso será retirado dos cofres do Estado, desempoeirado e polído, e entregue, em cerimónia oficial, a quem de direito, num acto cuja magnificência moral será apenas comparável à devolução de obras de arte pela Alemanha do pós-Guerra, e cujo fausto será incomensurável para que qualquer língua, viva ou morta, o possa relatar com precisão ou de forma aproximada.
O Indivíduo deverá, então, concorrer à presidência da Junta de Freguesia do seu local de residência, caso seja esse o seu desígno, de forma independente, e por iniciativa própria. O novo Estado não exige ao candidato que penhore antecipadamente a sua dignidade. Ele é livre de se apresentar ao povo em toda a sua humanidade.
Como parte do Novo Plano de Ordenamento Territorial, a ser elaborado na única reunião do novo executivo, a Ponte Vasco da Gama será trasladada para o Minho, o Centro Cultural de Belém para a Fossa das Marianas (se a honra das contas do Estado assim o permitir, caso contrário, será apenas transformado em zona de pasto livre), o Mosteiro dos Jerónimos para o Alentejo e a Torre Vasco da Gama para o Alto Douro. O Allgarve passará novamente a ser designado por Algarve, e Lisboa deixará de ter lojas de penhores. O comércio de Carácter será, posto isto, decretado ilegal.
A Capital passará a ser uma ilha construída artificialmente, com recurso a tecnologias de compactação de solo, possuindo nada mais que um burro de ferro, e uma lápide. Qualquer pessoa será livre de visitar a Capital, mas ninguém terá o direito de lá se estabelecer. Tal como no Túmulo de Lenine, na Ilha-Capital será proibido estancar o passo, por forma a maximizar a qualidade da observação da lápide do Poder Central, sem colocar em causa a segurança do visitante. Será proibido alimentar a árvore murcha que lá plantarei, através, não de um decreto, mas de uma placa de alumínio, em local visível, e com a inscrição “Proibido Alimentar o Eucalipto”.
Por portaria do Ministro sem Pasta, a única reunião do novo Governo será pautada pela boa disposição, e por um indisfarçável sentimento de dever cumprido. Feitas as contas do Estado, e publicadas as conclusões e os decretos acima citados no Diário da República, devidamente composto com ilustrações eróticas de Jean Cocteau, o dinheiro do extinto Ministério da Defesa será utilizado, como pièce de résistance, num acto de boa fé para com o Povo Português, que será presenteado, sem distinções de classe, com um copo de Syrah, colheita de 2004, e uma rosa, para usar na lapela.



Com Carinho, do vosso Primeiro-Ministro,
Diogo de Sousa

Diário Íntimo de António Só, 28 de Julho


28 de Julho,
continuo de boa saúde, obrigado.

"Como Cristo, em antecipação a Pedro Valdo.
Epístola de Diogo de Sousa aos Valdenses.


Eu não me submeto a leis na interpretação da palavra de Deus - Martinho Lutero ao Papa Leão X

Sou católico e reformista. Simplifiquei o processo de comunhão para o nível zero, o mais alto de todos os níveis, na escala que eu próprio criei. Toda a minha fé assenta no imediatismo da comunhão. Acabaram-se as deferências, os intermediários, as fórmulas, os ritos. Acabaram-se as imagens votivas, os cânticos, os salmos, as graças. Dirijo-me a Deus na primeira pessoa, e com Ele conferencio de igual para igual. Glorifico os seus actos com a mesma rapidez e desenvoltura com que os critico. E, olhando para o que tem sido a minha vida até agora, suponho que ele também não deixe de se divertir comigo."


- Diário Íntimo de António Só, 28 de Julho, Primeira Entrada

Um Pouco de Cultura Visual - Carracci Erótico II - Páris e Enone

Diário Íntimo de António Só, 26 de Julho


26 de Julho,
escrevo consciente e de boa saúde, obrigado.


"Estava no meu escritório, seco como uma tâmara.
Esta divisão da casa, que reclamei como minha pelas artes da guerra, este pedaço de Éden esculpido com o meu nome, este santuário, pelo qual tantos e tantos pereceram no campo de batalha, este pedaço de Paraíso, dizia eu, assemelha-se sobremaneira à superfície de Mercúrio, numa tarde soalheira; o Sol envolve-se licenciosamente com as paredes, e o sub-produto dessa união, expresso em graus celsius, consome avidamente toda e qualquer sensação de saciedade e bem-estar com a qual eu possa estar em comunhão (num potencial expectável). Num inexplicável processo de alquimia alienígena (por extravasar largamente as fronteiras do conhecido) qualquer líquido que penetre o meu corpo é imediatamente transformado em gás, e nesse mesmo instante, expelido pelos poros, caíndo no chão já sob a forma de pequenos cristais sólidos, que me ferem as plantas dos pés ao caminhar. Serafim, o Bárbaro, que vive placidamente sobre a minha língua (é ele quem vos insulta repetidamente, não eu!) propôs, quando me preparava para mover o cavalo sobre o tabuleiro, numa manobra de diversão táctica de fazer corar o General Carl von Clausewitz, uma trégua momentânea, acompanhada de uma amena troca de impressões e um copo de Chardonnay a 11º. Não tendo como recusar, pois o xadrez quer-se um jogo de cavalheiros, assenti, e assim se iniciou uma saudável discussão acerca da validade da transposição da crítica social das pinturas de H. Bosch para a sociedade contemporânea, tudo isto enquanto desciamos as escadas, eu, com as plantas dos pés em sangue, e o pequeno homúnculo, na ombreira da minha língua. A sala estava decorada com uma linda dinamarquesa, delícia para quinze primaveras, que me cumprimentou docemente em francês. Respondi com cordialidade e conferi o Larousse de Poche: tudo indicava para o milagre da geração espontânea. Como este tempo me tolhe um pouco o espírito (sou um homem de pólos, acima de tudo, de pólos), não dei grande importância ao caso, e segui o caminho que havia pré-delineado para a cozinha, onde me regalei fartamente com esse belo composto de oxigénio e hidrogénio, nada encorpado, e ao qual geralmente se associa aquele ligeiro travo, algo corriqueiro, a desinfectante (havia sido desviado da verdade, no que ao Chardonnay dizia respeito). Com um livro de gravuras na mão, e uma pequena lupa que havia usado para decifrar as cópias de Bosch que ali vinham impressas à escala de 1/1000000000, cabelo em furiosa desordem, calções rotos, e barba de Cristo Cruxificado, dirigi-me para o pátio; sobre a mesa, um farto banquete! Queijo de Azeitão, amendoíns do Alabama (Mr. Peanuts), vinho à fartazana (do Porto, colheita privada, Branco e Tinto), e um pratinho de doces conventuais e outras delícias talhadas por freirinhas em reclusão, que na escuridão das suas celas se tocam cuidadosamente, apenas para se certificarem de que do rabo não está prestes a surgir um ovo, com o qual nos deleitarão o palato. Debruçados sobre a mesa, os meus velhos pais, os meus padrinhos, um português radicado em Paris, e a sua esposa dinamarquesa (o que explica a presença da Virgem Santa com que me cruzara).
Sem qualquer tipo de introdução, ou acto preparatório, como é de bom tom em qualquer Ópera Bufa, sem qualquer tipo de Abertura, sem qualquer libreto adquirido à entrada, conhecimento de sinopse ou descrição de personagens, sem que os instrumentos tivessem sido calibrados, sem que o maestro tenha dado de si, pondo cobro aos aplausos, sem que o público tivesse tempo de aclarar a garganta e tossir o estômago (como ditam as leis da etiqueta), e, acima de tudo, sem que tivesse havido tempo, na concepção métrica do movimento de um corpo, ou mesmo na concepção astral da relativização do mesmo, para dar às de vila-Diogo, como é meu apanágio, vejo-me sentado no centro do palco, com uma carta astrológica à frente das órbitas (na qual se podia ler, manuscrito, Diogo Magalhães de Sousa), e uma avassaladora vontade de me desfazer em gargalhadas (que evitei por decoro, tal como havia sido ensinado à bofetada pela corja episcopal que me educou), daquela alegria grosseira que vem das profundesas do estômago, que faz aflorar à boca litros e litros de bílis e escárnio, numa torrente apenas comparável ao caudal do Nilo ou à capacidade líquida de um fiorde escandinavo."

- Diário Íntimo de António Só, 26 de Julho, Primeira Entrada

Dias Apaixonados da Adolescência


Jaz agora adormecido, Marte, aos pés de Vénus; nu, e despojado de suas armas.
As suas insígnias, outrora objectos de morticínio, desempenham presentemente o doce papel do recreio, entregues aos co-adjuvantes da deusa vitoriosa.
A guerra definha lentamente sob o olhar atento do amor. Em seu lugar, do interior da informe crisálida da metamorfose, transpira um elemento de igual vigor: a delícia.

Um Pouco de Cultura Visual - Carracci Erótico I - António e Cleópatra

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Caros Seguidores, um dia fundaremos uma religião.

Caros Seguidores, um dia fundaremos uma religião.
Sejam bem-vindos, caros amiguinhos, às minhas diatribes electrónicas, a esta verborreia do inconsciente. Espero, como vosso dedicado amigo, que os meus amiguinhos aqui encontrem paz de espírito, um lugar à sombra, sob o Sol do Paraíso. Que aqui se sintam apaziguados, como entre os vossos, e que cada nova página electrónica se transforme num imenso mar de conforto, de bem-estar, onde as ondas deixaram há muito a sua bravia, transformando-se, agora, nos ternos e quentes braços que vos embalam.
Atenção, amiguinhos, sou eu que bato à porta. Os meus amiguinhos não quererão abrir? Deixar-me-ão aqui, do lado de fora, sempre do lado de fora, à chuva? Trago comigo um barquinho, para os meus amiguinhos. É uma pequena lembrança. Um pequeno barquinho, feito de madeira de balsa, para os meus amiguinhos. Esculpido com as unhas destes dedos enrugados, de tanto estar à chuva. É a Nave dos Loucos? Os meus amiguinhos perguntam se é a Nave dos Loucos? Não, não é a Nave dos Loucos, meus amiguinhos, apesar de o Capitão e o seu Primeiro Imediato lá terem tripulado. Pelo olho-de-boi parece a Nave dos Loucos, eu sei, mas não é, meus amiguinhos; podeis descansar esses corações inquietos. Este barco não tem nome, nem leme, e o casco é frágil. A popa assemelha-se sempre à proa, e as cartas marítimas estão feitas em farrapos. Não me quererão abrir a porta, ao seu querido amiguinho, meus amiguinhos? Aqui fora chove, e alguém grita que não tem medo de existir. Aqui fora chove, e alguém grita "Morte aos Feios! Viva a República!"