terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Agenda Política, segundo Diogo de Sousa


A Agenda Política, segundo Diogo de Sousa (Ainda a tempo das próximas eleições)


Como primeiro decreto do novo Governo, será adicionado, por recriação, um archote aceso, e uma generosa quantidade de combustível (não superior a 2l/habitante), ao Edifício do Parlamento, e a isso será chamado, também por decreto, “Dia da Defesa Nacional”.
Dissolvidas as coisas pelo fogo, o poder será reduzido, pelo Chefe de Estado, numa atitude de auto-mutilação consciente, à Junta de Freguesia. Nada poderá suplantar, em tamanho, poder ou vanglória, a Instituição da Junta de Freguesia. A felicidade e o sonho não estarão sob decretos métricos estatais (do Estado Nado-Morto), sendo, por isso, livremente aplicados pela consciência de cada um.
O dinheiro proveniente da Economia de Comarca e Inter-Comarca será aplicado na Comarca produtora, em quantidades absolutas, e em actividades ou infra-estruturas a decidir em reunião magna local. O dinheiro proveniente da Economia Internacional será distribuido, num envelope selado com a marca de água do novo Governo no canto inferior direito, por todas as Freguesias do novo estado, primeiramente numa base per-capita (não superior a 85% do montante total), e subsequentemente (os restantes 15%, e o excedente dos arredondamentos à unidade) numa base pro-rata. Será privilegiado o investimento em arraiais populares (de duração variável) e no incentivo ao Comércio Local. Isto também será um decreto.
Ainda por decreto, serão extintos todos os partidos políticos, e o bom senso será retirado dos cofres do Estado, desempoeirado e polído, e entregue, em cerimónia oficial, a quem de direito, num acto cuja magnificência moral será apenas comparável à devolução de obras de arte pela Alemanha do pós-Guerra, e cujo fausto será incomensurável para que qualquer língua, viva ou morta, o possa relatar com precisão ou de forma aproximada.
O Indivíduo deverá, então, concorrer à presidência da Junta de Freguesia do seu local de residência, caso seja esse o seu desígno, de forma independente, e por iniciativa própria. O novo Estado não exige ao candidato que penhore antecipadamente a sua dignidade. Ele é livre de se apresentar ao povo em toda a sua humanidade.
Como parte do Novo Plano de Ordenamento Territorial, a ser elaborado na única reunião do novo executivo, a Ponte Vasco da Gama será trasladada para o Minho, o Centro Cultural de Belém para a Fossa das Marianas (se a honra das contas do Estado assim o permitir, caso contrário, será apenas transformado em zona de pasto livre), o Mosteiro dos Jerónimos para o Alentejo e a Torre Vasco da Gama para o Alto Douro. O Allgarve passará novamente a ser designado por Algarve, e Lisboa deixará de ter lojas de penhores. O comércio de Carácter será, posto isto, decretado ilegal.
A Capital passará a ser uma ilha construída artificialmente, com recurso a tecnologias de compactação de solo, possuindo nada mais que um burro de ferro, e uma lápide. Qualquer pessoa será livre de visitar a Capital, mas ninguém terá o direito de lá se estabelecer. Tal como no Túmulo de Lenine, na Ilha-Capital será proibido estancar o passo, por forma a maximizar a qualidade da observação da lápide do Poder Central, sem colocar em causa a segurança do visitante. Será proibido alimentar a árvore murcha que lá plantarei, através, não de um decreto, mas de uma placa de alumínio, em local visível, e com a inscrição “Proibido Alimentar o Eucalipto”.
Por portaria do Ministro sem Pasta, a única reunião do novo Governo será pautada pela boa disposição, e por um indisfarçável sentimento de dever cumprido. Feitas as contas do Estado, e publicadas as conclusões e os decretos acima citados no Diário da República, devidamente composto com ilustrações eróticas de Jean Cocteau, o dinheiro do extinto Ministério da Defesa será utilizado, como pièce de résistance, num acto de boa fé para com o Povo Português, que será presenteado, sem distinções de classe, com um copo de Syrah, colheita de 2004, e uma rosa, para usar na lapela.



Com Carinho, do vosso Primeiro-Ministro,
Diogo de Sousa

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