terça-feira, 21 de setembro de 2010
Diário Íntimo de António Só, 26 de Julho
26 de Julho,
escrevo consciente e de boa saúde, obrigado.
"Estava no meu escritório, seco como uma tâmara.
Esta divisão da casa, que reclamei como minha pelas artes da guerra, este pedaço de Éden esculpido com o meu nome, este santuário, pelo qual tantos e tantos pereceram no campo de batalha, este pedaço de Paraíso, dizia eu, assemelha-se sobremaneira à superfície de Mercúrio, numa tarde soalheira; o Sol envolve-se licenciosamente com as paredes, e o sub-produto dessa união, expresso em graus celsius, consome avidamente toda e qualquer sensação de saciedade e bem-estar com a qual eu possa estar em comunhão (num potencial expectável). Num inexplicável processo de alquimia alienígena (por extravasar largamente as fronteiras do conhecido) qualquer líquido que penetre o meu corpo é imediatamente transformado em gás, e nesse mesmo instante, expelido pelos poros, caíndo no chão já sob a forma de pequenos cristais sólidos, que me ferem as plantas dos pés ao caminhar. Serafim, o Bárbaro, que vive placidamente sobre a minha língua (é ele quem vos insulta repetidamente, não eu!) propôs, quando me preparava para mover o cavalo sobre o tabuleiro, numa manobra de diversão táctica de fazer corar o General Carl von Clausewitz, uma trégua momentânea, acompanhada de uma amena troca de impressões e um copo de Chardonnay a 11º. Não tendo como recusar, pois o xadrez quer-se um jogo de cavalheiros, assenti, e assim se iniciou uma saudável discussão acerca da validade da transposição da crítica social das pinturas de H. Bosch para a sociedade contemporânea, tudo isto enquanto desciamos as escadas, eu, com as plantas dos pés em sangue, e o pequeno homúnculo, na ombreira da minha língua. A sala estava decorada com uma linda dinamarquesa, delícia para quinze primaveras, que me cumprimentou docemente em francês. Respondi com cordialidade e conferi o Larousse de Poche: tudo indicava para o milagre da geração espontânea. Como este tempo me tolhe um pouco o espírito (sou um homem de pólos, acima de tudo, de pólos), não dei grande importância ao caso, e segui o caminho que havia pré-delineado para a cozinha, onde me regalei fartamente com esse belo composto de oxigénio e hidrogénio, nada encorpado, e ao qual geralmente se associa aquele ligeiro travo, algo corriqueiro, a desinfectante (havia sido desviado da verdade, no que ao Chardonnay dizia respeito). Com um livro de gravuras na mão, e uma pequena lupa que havia usado para decifrar as cópias de Bosch que ali vinham impressas à escala de 1/1000000000, cabelo em furiosa desordem, calções rotos, e barba de Cristo Cruxificado, dirigi-me para o pátio; sobre a mesa, um farto banquete! Queijo de Azeitão, amendoíns do Alabama (Mr. Peanuts), vinho à fartazana (do Porto, colheita privada, Branco e Tinto), e um pratinho de doces conventuais e outras delícias talhadas por freirinhas em reclusão, que na escuridão das suas celas se tocam cuidadosamente, apenas para se certificarem de que do rabo não está prestes a surgir um ovo, com o qual nos deleitarão o palato. Debruçados sobre a mesa, os meus velhos pais, os meus padrinhos, um português radicado em Paris, e a sua esposa dinamarquesa (o que explica a presença da Virgem Santa com que me cruzara).
Sem qualquer tipo de introdução, ou acto preparatório, como é de bom tom em qualquer Ópera Bufa, sem qualquer tipo de Abertura, sem qualquer libreto adquirido à entrada, conhecimento de sinopse ou descrição de personagens, sem que os instrumentos tivessem sido calibrados, sem que o maestro tenha dado de si, pondo cobro aos aplausos, sem que o público tivesse tempo de aclarar a garganta e tossir o estômago (como ditam as leis da etiqueta), e, acima de tudo, sem que tivesse havido tempo, na concepção métrica do movimento de um corpo, ou mesmo na concepção astral da relativização do mesmo, para dar às de vila-Diogo, como é meu apanágio, vejo-me sentado no centro do palco, com uma carta astrológica à frente das órbitas (na qual se podia ler, manuscrito, Diogo Magalhães de Sousa), e uma avassaladora vontade de me desfazer em gargalhadas (que evitei por decoro, tal como havia sido ensinado à bofetada pela corja episcopal que me educou), daquela alegria grosseira que vem das profundesas do estômago, que faz aflorar à boca litros e litros de bílis e escárnio, numa torrente apenas comparável ao caudal do Nilo ou à capacidade líquida de um fiorde escandinavo."
- Diário Íntimo de António Só, 26 de Julho, Primeira Entrada
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

Sem comentários:
Enviar um comentário